Já me confundiram com o Tio
Patinhas
A cumprir 25 anos de Avô Cantigas, Carlos Vidal
está cada vez mais parecido com o “boneco” que
criou em 1982. “Hoje já não tenho que pôr
cabeleira nem pintar o bigode”, diz. Pacato e afável,
aceitou receber-nos em sua casa para nos falar das paixões,
dos filhos e, claro, do seu avô, um músico que
trabalhou numa fábrica de papel na
Lousã.
Correio
Êxito– Depois de
tantos anos ainda consegue dissociar o Avô Cantigas do Carlos
Vidal?
Carlos Vidal - Os dois sempre se
confundiram porque estão muito ligados na vida e na maneira
de ser. Um dos segredos que fez com que o Avô Cantigas
durasse tanto foi o facto de eu, Carlos Vidal, nunca ter precisado
de fazer grande teatro para vestir a
personagem.
- Ser avô aos
28 anos não lhe causou
estranheza?
– Um pouco. No
início, criámos uma personagem um pouco curvada, que
andava devagarinho e falava pausadamente. Ao final de três
semanas abandonámos esse figurino e eu comecei a aparecer
com a normalidade da minha maneira de ser e de
falar.
–
Porquê?
– A
música era muito ritmada e não combinava com uma
imagem parada do Avô. Depois foi quando me desliguei de
querer fazer teatro, o que permitiu ao Avô Cantigas deixar-se
levar por aquilo que eu sou. Transformou-se num avô
desassossegado.
– Inspirou-se
em quem para construir a
personagem?
– Em
ninguém em especial. Eu e o António Pinho
inventámos o Avô Cantigas para preencher um
espaço infantil no ‘Passeio dos Alegres’.
Queríamos um boneco que criasse nas crianças algum
tipo de fantasia e pareceu-nos que a figura de um avô seria a
ideal.
– O Avô
Cantigas ajudou-o a educar os seus
filhos?
– Quando o meu primeiro filho
nasceu eu já era o Avô Cantigas. Com o passar do tempo
eles foram achando piada ao facto daquela personagem da
televisão viver lá em casa. Fui cantar a todas as
escolas por onde eles passaram. Claro que às tantas todos
sabiam que o Avô Cantigas era o pai do Paulo e do
Luís.
– Hoje poucos
conhecem o que o Carlos Vidal fez antes do Avô Cantigas. A
maioria nem saberá que em 79 já cantava no Festival
RTP da Canção. Isso não o
entristece?
– É
verdade que as pessoas não têm noção do
que fiz, mas eu não penso nisso e por conseguinte não
me entristece. Sei que há uma geração de
pessoas da minha idade que, de certa maneira, se
lembra.
– Sente-se
capaz de fazer canções para outros
públicos?
– Claro que
sim. Tenho essa vontade, mas não tendo um propósito
não consigo sentar-me a escrever. Era preciso um projecto
para que eu me agarrasse.
– Quando
é que percebeu que a música ia ser a sua
vida?
– Acho que foi precisamente
quando me mudei para Cascais. Na altura fui estudar para os
Salesianos do Estoril e comecei a substituir os tais caixotes
improvisados por instrumentos a sério, até porque
tinha uns amigos que tocavam viola. Ajudou também o facto de
eu ter entrado para os escuteiros. O meu cargo nas patrulhas era de
animador. Convenci os meus pais a comprarem-me uma viola e
lembro-me que apesar de ter começado a tocar Beatles e Cat
Stevens, tentei logo fazer as minhas próprias
músicas. Tinha 18 anos e lembro-me que comecei a ver a
música de outra maneira.
– Como
é que chegou à gravação do seu primeiro
disco?
– Foi o companheiro da actriz
Maria José, mãe da também actriz Rita Ribeiro,
que foi minha vizinha na Parede, que um dia mostrou as minhas
canções a uma pessoa chegada ao Rádio Clube
Português. Essa estação estava ligada a uma
editora chamada Imavox que gostou tanto do que ouviu que decidiu
chamar-me para gravar um disco. Curiosamente eu ainda era menor e
foi o meu pai que assinou o contrato.
– Quem
é o
‘Fantasminha...’?
– É uma
personagem inventada pelo António Pinho, que foi quem fez a
letra, e pretende desmistificar o medo dos fantasmas e do
escuro.
– Como
é que tem lidado com o passar dos
anos?
– Tenho lidado bem. Do ponto de
vista do aspecto físico há mais pontos comuns entre o
Carlos Vidal e o Avô Cantigas. Ainda hoje não me
considero uma pessoa de cabelo branco. O meu cabelo ainda é
mais para o castanho. Por cima das orelhas é que já
está grisalho, o que me permite dizer que é o cabelo
do Avô Cantigas. O resto está tapado pelo boné.
Mas temo que com o passar dos anos o Avô Cantigas vá
ficar careca (risos), porque estou a perder algum
cabelo.
– Quem
é o Carlos Vidal longe da
música?
– Sou uma
pessoa que adora ler livros uns atrás dos outros. Pratico
ciclismo e já fiz Sintra-Fátima de bicicleta. Gosto
muito de nadar com óculos e ver o fundo do mar. Corro e
já estou inscrito na próxima meia-maratona de
Portugal.
In Correio da
Manhã
por Miguel
Azevedo
Fotografia de
Vítor
Mota
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